terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Plasticircose [conto] - versão 2

Abriu os olhos um segundo antes de o despertador tocar, sentindo a dor das feridas abertas no braço. 7:29. Os números em vermelho. Os dois pontos piscando entre eles, como os nódulos que latejavam.
O alarme soou agudo e metálico no sistema de áudio do apartamento. 7:30. Apertou o botão em cima do relógio e o ruído cessou. A dor continuava.

As caixas de som reproduziram as notas de piano e a voz de veludo negro de Nina Simone: "There's a new world commin' / And it's just around the bend." O som da estação de rádio de alta-fidelidade era cristalino e brilhante como o holograma de Nina ao piano, com o merchandising da garrafa de scotch animada sobre o tampo com o slogan.  Johnnie Walker Blue Label – put your blues out. A música continuava e podia-se ouvir o ruído da agulha correndo pelo vinil e até os ruídos remotos da gravação original. Ela deixava todos esses recursos habilitados por padrão. Sentia que os sons originais tinham algo do velho romantismo. Deleite auditivo para começar bem o dia, enquanto levantava da cama e tomava banho. 

Deixou a água tépida correr pelo seu corpo com a solução emulsionante, que limpava os poros e fazia arderem as feridas, enquanto passava mentalmente as atividades do dia em revista.

Havia coisas práticas para serem resolvidas. A despensa estava desprovida de enlatados, envelopes de sopa, pacotes de massa seca. Faltavam até biscoitos de água e sal. Tudo se fora ao longo do período de quarentena, durante o qual seu único contato físico com a rua tinha sido através dos entregadores, que agora estavam de greve. Ela acompanhava pela televisão os protestos e as passeatas de pessoas cobertas pelas máscaras anti-contágio, enquanto trabalhava no computador e enviava os projetos ao escritório pela internet. Ia retomando e concluindo cada um deles na medida em que conseguia energia suficiente para realizar cada tarefa, o que era cada vez mais difícil. Era assim para todos. Os entregadores na televisão pareciam tão prostrados quanto ela, apesar de estarem na rua, protestando dentro de seus escafandros. Um caos diante do palácio do governador, e parecia que a situação não tinha solução para breve. O número de infectados aumentava exponencialmente e as autoridades pareciam estar apenas tentando manter tudo sob controle.

Ainda havia a dor: era como se os nódulos estivessem repuxando a pele de seu braço, tirando sua concentração e deixando-a cansada logo de manhã. Enquanto isso, os prazos dos projetos continuavam correndo. Ninguém queria saber se ela estava doente ou sã. Eram muitos contratos e multas em jogo, de forma que ou ela se restabelecia, ou seria substituída. Os trabalhos acumulados, os e-mails abarrotando sua caixa postal com cobranças e ameaças de demissão ou redução proporcional nas comissões. Ela não podia ficar doente e, além disso, desempregada. Precisava fazer algo a respeito. Lutar, por-se de pé.

Quanto aos nódulos, que iam crescendo às custas de sua própria carne, esses ela não podia evitar – tinha que escondê-los e agüentar a dor de cada um deles. Ela ainda podia, apesar das dores terríveis, perfurar ou cortar a própria carne e ir tirando os caroços menores e mais contagiosos, para queimá-los com álcool em uma vasilha, conforme orientações das autoridades de saúde. Começava com um pequeno corte e os tirava com a pinça, como balas de revolver. Depois, via-os derretendo no fogo e perdendo seu tom de pele até ficarem escuros como carvão, exalando cheiro e fumaça preta de plástico queimado. O procedimento deixava feridas em sua pele, que precisavam ser tratadas diariamente.

Mas contra o vazio de seu estômago, contra isso ela podia lutar. Pelo menos enquanto os caroços não se multiplicassem e se alastrassem até a mão ou o pescoço, ficando visíveis. Para quitar esse problema, bastava uma ida ao mercado, apesar dos riscos que a excursão envolvia – e sair de casa foi uma decisão bastante fácil. Natural, até. Era isso ou apodrecer, esperando para ver se morreria de fome ou se os nódulos carcomiam sua carne antes. Tomou o anti-inflamatório e o analgésico, terminou os curativos e vestiu o casaco de mangas compridas. Apesar do calor, precisava esconder as marcas nos braços. Colocou também a máscara anti-contágio, enquanto o gato se enrolava em suas pernas, ronronado. Acariciou sua cabeça e sentiu que ele também já estava tomado de cistos plásticos. Depois bateu a porta de casa, fazendo força para pensar que era um dia como os de antigamente, sem doença ou dores, sem nódulos, apenas com os problemas do dia-a-dia que se inventavam e que podiam ser levados com a barriga.

Precisava ir ao supermercado e à farmácia, era só o que importava naquele dia ensolarado. As dores no estômago de tomar tantos medicamentos, ou mesmo as feridas, se tornavam eventualidades diante da necessidade prática, o que era bom: quanto melhor conseguisse acreditar que se sentia bem, melhor representaria para os outros e isso a manteria a salvo. Mas, mesmo com o céu limpo, era difícil imaginar que seria um dia como os de antes da doença, quando as feridas fechavam ao invés de se multiplicarem tão rápido. Em um dia normal ela não estaria usando a máscara pesada de borracha e acrílico, cujo filtro acoplado era tão sólido e pesado que se tornava difícil caminhar com a cabeça ereta.

Na rua quase vazia, as pessoas que conseguia ver também usavam máscaras iguais. A cada duas quadras, os agentes da defesa epidemiológica, vestidos com escafandros anti-contágio, controlavam o trânsito de pedestres e veículos, parando uma pessoa ou outra aleatoriamente, em esquema de blitze. Faziam perguntas e davam conselhos. Os cães de rua eram exterminados pelos jatos de espuma cáustica paralisante lançados de dentro dos cilindros que eles traziam às costas. Todos já eram considerados previamente contaminados. Viu um desses cãezinhos de rua serem sacrificados em uma esquina lá adiante e lembrou de sua cadelinha Laleshka, que enterrara semanas antes. Lembrou do pingente dourado com seu nome, que ela levava na coleira, e sentiu tanta dó que pensou em intervir. Decidiu ser previdente e atravessou a rua para que não a parassem. Quando chegou mais perto, uma patrulha estacionava para recolher os dejetos sólidos e líquidos do sacrifício químico.

Apressou o passo e pensou como eram loucos aqueles tempos. Na época de seus avós, as doenças mais contagiosas levavam ao menos uns seis meses para se alastrarem mundo afora. Eram gripes asiáticas, gripes aviárias e suínas, gripes H1N1. As coisas foram ficando mais sérias e agora os males eram muito maiores e mais catastróficos. Não tinham origem viral ou geográfica ou animal. Tampouco siglas. Eram de ordem residual e inorgânica. Algumas eram inventadas em laboratórios, e tinham até antídotos com valor já estipulado antes mesmo de cruzarem as fronteiras dos países onde haviam surgido. Foi assim com o silicatismo, com os males de transgenia, com a síndrome metalúrica. O advento desses males logo foi seguido pelos anúncios de cura e preços para a salvação, dando origem a um mercado intitulado pela imprensa como de "consumo-ou-morte". Com a doença nova era diferente. Parecia que algo saíra do controle. Falava-se em políticas eugênicas e teorias conspiratórias envolvendo governos e indústrias farmacêuticas, mas a plasticircose atingia todas a raças, etnias e classes sociais. Não havia a cura ou preço para a cura.

Chegando ao mercado, alarmou-se com tudo. Os funcionários usavam escafandros parecidos com os dos agentes do controle epidemiológico, só faltavam os cilindros de espuma. Os preços eram absurdamente altos, e para diversos produtos não havia variedade de marcas disponíveis. Também não queria perder muito tempo se preocupando, o importante era comprar o que precisava e concentrar-se para controlar as dores que já começavam a latejar pelo braço – nas feridas, nos tecidos, na carne corroída pelos nódulos. Mas mal enchera o carrinho e já sentia um cansaço no corpo todo, como se estivesse prestes a desabar.

Qualquer esgar ou gemido de dor poderiam ser flagrantes. Havia a tensão de que alguém percebesse sua dor ou se desse conta de que ela estava contaminada, e aquilo poderia ser o seu fim. Os funcionários tocariam os alarmes e o supermercado seria invadido pelos agentes, que a levariam para a quarentena pública, de onde ninguém saía vivo. Diziam no noticiário que as pessoas eram recolhidas para tratamento, mas nas ruas todos comentavam que, na verdade, todos eram abandonados nesses lugares para morrer. Ela precisava se cuidar o tempo todo, principalmente quando pegava um produto em uma prateleira mais elevada. Se a manga do casaco não deslizasse, deixaria as feridas de seu braço à mostra. Lembrou dos desafortunados, nos quais a doença se desenvolvera diretamente no rosto, nas mãos, em membros que ficavam à vista e acarretavam perda de mobilidade, ou em órgãos que tinham suas funções logo prejudicadas. Para eles a morte era rápida e certa, se não pela doença, pelas mãos dos sadios que desejavam exterminar o mal.

Quando chegou ao caixa, já sentia que o efeito dos analgésicos estava passando. Ainda não era propriamente a dor forte e difícil de disfarçar. Antes, era um latejar mais intenso, umas pequenas pontadas faziam com que se sentisse como uma minúscula boneca vodu. E era preciso ficar firme por algum tempo, ainda. A fila do mercado estava comprida e demorada. O que, por si só, já a deixaria aflita. Se não desistia e deixava todas as compras ali era porque realmente precisava abastecer a despensa. Pensou que devia ter ido antes à farmácia, mas não imaginava encontrar tanta gente dentro do supermercado, com as ruas tão vazias. Tomara a última dose de analgésicos logo antes de sair de casa mas o tempo passara voando e o efeito dos analgésicos era cada vez mais breve. Contemporizou consigo mesma que a farmácia era a um passo dali. Chegaria lá e tomaria mais um comprimido assim que a atendente lhe entregasse os remédios que pedisse, antes mesmo de pagar.

Logo atrás dela, dois rapazes não paravam de tagarelar. Pelo vocabulário, deviam ser estudantes de direito, que estavam agora prolongando uma discussão iniciada nos bancos universitários. Falavam com máxima propriedade e termos técnicos sobre a nova doença, assunto onipresente em todas as rodas: nas mesas de bar, no rádio, na televisão. Discutiam sobre o direito dos infectados e dos sãos, do contágio pelo ar, da privação de liberdade, da pena de morte, do horror. Concordavam, discordavam. Um deles parecia mais cauteloso e compreensivo em seus comentários, lembrando que os infectados cumpriam quarentena em suas casas e eram ajudados por parentes sadios. O outro rebatia, afirmando que nem todos os infectados tinham familiares – ainda mais que estivessem sãos. A virulência furiosa da doença chegava em uma casa e ali se instalava em todos os seus moradores. Os contaminados estavam pelas ruas, andando entre os normais enquanto suas vísceras, pele e ossos se mutavam descontroladamente. Falavam no estado de epidemia e nas possibilidades de cura.

A caixa do supermercado começou a registrar os produtos e a embalá-los. Ela pensou como aquela moça, dentro da roupa de astronauta, empacotando as compras em sacos de papel pardo, tinha algo de irônico, mesmo que não fosse intencional. O absurdo de tudo era a própria situação: justo quando o silício, os plásticos e os metais já estavam dentro dos corpos das pessoas, fazendo a festa na estrutura de suas células, na corrente sangüínea, só então tinham vindo as redes varejistas e as indústrias a se importar de verdade com a ecologia. Era tarde demais para se adotar posturas ecológicas e politicamente corretas. O jogo já tinha virado e, de acordo com as novas regras, apenas o artifício poderia vencer o mal. Era preciso lutar contra os inimigos que haviam sido criados com as mesmas armas de que dispunham. Só o metal podia contra o metal, o polímero contra o polímero, o veneno contra o veneno. Era guerra, e guerra sempre seria guerra, fosse entre nações ou no nível celular.

Quando a moça disse o preço ela aproximou sua mão do leitor. A dor estava maior, fazia com que tremesse. Com um breve apito e a mensagem na tela, o sistema de cobrança acusou erro e ela fez uma nova tentativa, respirando fundo para que sua mão não oscilasse tanto. O computador emitiu um apito breve e a luz verde piscou, indicando que a transação estava aprovada. Aliviou-se com a confirmação da compra. Agradeceu a Deus por ainda ter crédito e por ter conseguido se controlar o suficiente para não gerar desconfianças. Mas olhou para o lado e percebeu que os garotos estavam quietos de repente. Olhavam para ela de cima a baixo com os olhos, embora disfarçassem a posição da cabeça. Observou que eles tinham vindo ao mercado apenas para comprar maços de cigarro medicinais com efeito bronco-dilatador, que eram a última moda entre os jovens. Marca Lungs'. Eles vinham em diversos sabores e não havia quem não os fumasse. Na propaganda holográfica da boca de caixa, uma menina indiana tragava fundo e parecia respirar aliviada, o que pareceu hipnotizá-la por alguns breves instantes.

Agradeceu à mulher do caixa, abraçou as sacolas e saiu do supermercado, com o passo acelerado para chegar o quanto antes à farmácia, que ficava a duas quadras dali. Ia pensando no quanto se arriscara, imaginando o que poderia acontecer se os estudantes tivessem visto as marcas em seus braços, e chegou a se virar para ver se já tinham saído. Eles estavam caminhando na mesma direção dela, conversando, mas sem deixar de olhar para a frente. Apressou o passo, sentindo as dores aumentarem na medida em que aumentava o ritmo da caminhada. Sentia sua pulsação cada vez mais acelerada, a boca seca, o suor nas mãos. Todas os sintomas do medo a cobriam enquanto sua caminhada se transformava gradualmente em fuga. Era algo incontrolável, o próprio corpo tomando conta da situação, embora ela procurasse dosar a velocidade dos passos para ganhar distância e afastar-se dos garotos, de preferência sem que eles percebessem. Porque não tinha certeza, não sabia se eles estavam mesmo tentando segui-la. Também não queria deixar que as compras caíssem no chão.

Olhou mais uma vez para trás e percebeu que eles estavam ainda mais próximos. Também haviam apressado o passo e olhavam para ela, sem dúvida. Estava quase chegando à farmácia, entraria ali e talvez se sentisse mais segura. Bastava se concentrar, agüentar a dor o mais bravamente que conseguisse. Pediria os remédios e tomaria alguns analgésicos de quinta geração que a fariam sentir-se revigorada. Os comprimidos eram mágicos nos primeiros minutos após a ingestão.

Estava a poucos passos da farmácia, quando foi alcançada e praticamente cercada pelos dois. Eles faziam com que se sentisse intimidada. Havia algo de manifesto, uma raiva intencional na postura e no olhar dos dois. Olhos de predadores. Não, olhos de assassinos. Um ar vencedor, de alívio e recompensa, como o da menina no holograma da propaganda de cigarros. Ela tentava não aparentar medo, mas estava absolutamente terrificada, a respiração curta, ofegante. Já não sabia se queriam assaltá-la ou violentá-la. Talvez nem fossem estudantes, no final das contas.

Então o mais nervoso deles falou. Isso fez com que se sentisse ainda mais angustiada: o que parecia mais violento era o que vinha falar-lhe primeiro, justamente o que tinha olhos mais negros e inescrutáveis. Ofereceu ajuda para levar suas compras, mas de uma maneira tão firme que a fez sentir um calafrio. Era a certeza de que estavam ali para lhe fazer o mal. Procurou não olhá-los diretamente nos olhos e agradeceu. Continuou andando em passo acelerado, mas eles ainda a acompanhavam. Decidiu passar reto pela farmácia e ir direto para casa. Seria melhor que eles não desconfiassem que ela estava doente. Se eles continuassem caminhando na mesma direção que ela por muito mais tempo, tentaria embarcar em um táxi, virar em uma esquina para ver se eles seguiam por outro caminho. Mas eles não desistiam, eram insistentes. Diziam que faziam questão de ajudar. O mais agressivo era quem mais falava e o outro só concordava, reforçava o que ele tinha dito. Não parecia haver entre eles mais nenhum ponto de discordância. Ela dizia que não, agora tentando ser um pouco mais firme, porque se sentia obrigada a reagir. Precisava fazê-los entender que desejava ficar sozinha, que lutaria se fosse preciso.

Eles continuaram escoltando-a por alguns metros, até um ponto onde estavam passando por um beco entre dois prédios. Um beco abarrotado de lixo por todos os lados, para onde eles a empurraram enquanto iam arrancando de seus braços as sacolas de papel pardo. Mas eles não fugiram com as sacolas, eles largaram as compras e a empurraram. Ela caiu no chão, entre os produtos que comprara e perto dos sacos de lixo. Durante a queda sentiu as palmas das mãos se escarificando no contato com o chão de concreto. Quis gritar, mas não tinha fôlego. Era como se os gritos sufocassem em sua garganta. Um deles já segurava o seus braços e pressionava sua cabeça no chão com um joelho. O outro vinha por cima e começava a despi-la. Agora o que segurava os braços colocava um pedaço de pano em sua boca e o outro tirava seu casaco. Estavam prestes a currá-la ali mesmo, quando enfim viram as feridas.

De repente ela estava no comando. Ela olhava para eles com olhos de maldade, olhos de vingança. Sabia que o menor contato direto que eles tivessem com as feridas os contaminaria, não importava que usassem máscaras. Foi então que o seu pulmão se encheu de ar e ela gritou o mais alto que pode. Era um grito de todas as sirenes, que não gritava palavra alguma, apenas vogal. Um grito terrível e básico, instintivo. Tão alto que se fez ouvir por dois agentes de segurança epidemiológica, que vieram em seu socorro.

Os garotos tentaram sair do beco, mas já estavam acuados pelos agentes, enquanto ela tentava se recompor. Um dos agentes ordenou ao outro que ligasse para a polícia. Os garotos tentavam se eximir de culpa, diziam que não era o que parecia, enquanto o agente mandava que ficassem quietos, com o borrifador de espuma apontado para eles. Os dois tentavam falar mesmo assim, mas apenas deixavam-no mais nervoso e ele gritava para que calassem a boca. Eles foram recuando mais para o fundo do beco, acuados pelo agente, e se aproximando cada vez mais dela. Agora estavam quietos e com as mãos para cima, afastando-se um do outro enquanto o agente alternava a mira do jato de espuma entre eles. Quando se aproximaram mais, ela já estava com o casaco na mão, pronto para vestir.

Foi então que um dos garotos pediu ao agente para que olhasse para o braço dela, justo na hora em que o outro agente chegava, acompanhado pelos policiais. Quando eles estavam entrando no beco, o agente que tinha ficado ali controlando os garotos deu voz de contágio. Os policiais ficaram afastados e o outro agente se aproximou. Os dois homens vestidos de astronauta apontaram as pistolas para ela e luzes vermelhas na ponta do borrifador começaram a piscar.

O corpo da mulher foi inteiramente coberto com a espuma de soda cáustica paralisante. Enquanto derretia, ela lembrou dos projetos que tinha por entregar e do gato que ficara trancado dentro de sua casa, com a gravação de Nina Simone programada no repeat: "There's a new world commin' / This one is commin' to an end". Nada disso tinha mais importância, agora que seus órgãos internos e suas células nervosas derretiam como o sal derrete as lesmas. Pelo acrílico da máscara, ela via os garotos, os policiais, os agentes do controle epidemiológico, e por fim a espuma que cobriu até sua cabeça. O contato abrasivo da espuma parecia derreter tudo, cobrindo-a com um manto quente e anestésico. Não havia mais dor, não havia mais nada.

2 comentários:

VOANDO FORA DA ASA disse...

HEY, RUDI!!!!

A MÃO ESTÁ SEMPRE CERTEIRA NA HORA DE AMASSAR, DAR O TEMPO, ENFORNAR E SERVIR UM BOM CONTO...

ABRAÇOS E BOAS LETRAS, AMIGÃO!

Alef disse...

Muito bom!